Dois dos principais jornais do Brasil publicaram editoriais recentemente com reflexões sobre os desafios do enfrentamento ao HIV no Brasil.
A Folha de S.Paulo escreveu que, apesar de o país dispor de um dos maiores programas de combate ao HIV/Aids, as novas infecções cresceram mais de 20% entre 2010 e 2025, segundo relatório do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids).
Os dados colocam o Brasil ao lado de 20 nações em que as estimativas mostram expansão de novos casos no período, como Afeganistão, Paquistão, Paraguai, Peru e Sudão. Em sete países, entre eles Quênia, Ruanda e Zimbábue, aconteceu o oposto: redução de novas infecções em cerca de 80%.
De acordo com a Folha, o aumento na testagem pode explicar a alta brasileira, mas não é o único fator. Expandir o diagnóstico é, inclusive, uma das três metas da ONU (leia mais abaixo). Porém, quanto maior o número de infecções detectadas, maior a demanda por tratamento. E o Brasil ainda não atingiu a meta de cobertura da terapia antirretroviral no SUS.
Beto de Jesus, diretor da AHF Brasil, comenta que um dos paradoxos do país no enfrentamento ao HIV/aids é que, apesar de existir um sistema de saúde gratuito, universal e integral, ainda há muita desigualdade entre estados, regiões e mesmo dentro de uma mesma cidade.
“Mesmo com os medicamentos antirretrovirais disponíveis no SUS, o aumento da qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV/aids, a eliminação da transmissão vertical e a expansão da PrEP e da PEP, estigma, pobreza, racismo e LGBTfobia contribuem enormemente para dificultar o acesso ao tratamento”, diz Beto de Jesus.
Enfrentando os desafios
O Globo destacou que, do ponto de vista científico, o controle do HIV é um problema equacionado, graças às campanhas educativas para o sexo seguro, aos medicamentos antirretrovirais e às terapias profiláticas para antes e depois de possível exposição do vírus.
Continuar colhendo os benefícios desses avanços, no entanto, depende de políticas públicas coerentes e contínuas. “À menor falha, os casos voltam a subir. É uma lástima que o Brasil, outrora conhecido como exemplo no combate ao HIV— o país chegou a quebrar patentes para distribuir drogas gratuitamente no SUS —, tenha retrocedido e hoje integre a lista dos países onde as infecções aumentam”, escreveu o jornal.
Para O Globo, o estágio atual de desenvolvimento não explica a dificuldade de controlar o HIV/aids. O objetivo global é identificar ao menos 95% dos que vivem com o vírus, oferecer tratamento a pelo menos 95% deles e alcançar em 95% dos tratados a supressão viral, necessária para evitar o contágio — meta conhecida como 95-95-95. No mundo, os indicadores estão em 88-89-95; no Brasil, em 96-82-95.
“Um dos maiores gargalos é no início precoce do tratamento e no monitoramento das pessoas que vivem com HIV, para que não deixem de tomar os medicamentos. Esse, inclusive, é um dos focos de atuação da AHF no Brasil, onde estamos presentes em mais de 30 serviços de saúde nos estados de São Paulo, Pernambuco, Amazonas, Rio Grande do Sul e Pará, além do Distrito Federal”, explica Beto de Jesus.
*Faça o teste de HIV*
Se der positivo, tem tratamento. No Brasil, os testes estão disponíveis no Sistema Único de Saúde. As clínicas da AHF no Recife (homens e população trans) e São Paulo (qualquer pessoa) também oferecem testagem de maneira 100% gratuita e sem estigma. Os endereços estão aqui.





