O Nzinga Coletivo de Mulheres Negras, organização não governamental parceira da AHF Brasil, acaba de lançar o Nosso filme , um minidocumentário de 17 minutos de duração integralmente produzido por meninas do quilombo urbano Manzo Ngunzo Kaiango , que fica no bairro Santa Efigênia, extremo leste de Belo Horizonte.
O filme retrata o trabalho de conscientização desenvolvido no local, uma das cinco comunidades quilombolas da capital mineira, a partir do depoimento de mulheres da comunidade. Um dos mais marcantes é o de Efigênia Maria Conceição, de 79 anos, a Mametu Muiandê. “Nasci em Ouro Preto e cheguei aqui ainda na época da Ditadura. Nós, negros, não tínhamos oportunidade para nada. Não fiz faculdade, mas estudei na escola da vida”, diz a matriarca do quilombo do Manzo. “Mametu” é o título das mulheres líderes do candomblé Bantu, equivalente a “Ialorixá” no candomblé Ketu.
As imagens foram gravadas durante a celebração do Dia das Meninas de 2024, com representantes dos quilombos do Manzo e do Açude, este localizado na Serra do Cipó, 100 quilômetros ao norte de Belo Horizonte.
O Nzinga integra o Girls Act , um programa global da Aids Healthcare Foundation (AHF) de empoderamento, desenvolvimento de lideranças e cuidados em saúde voltado para meninas e mulheres jovens em contextos de vulnerabilidade. Desde 1986 atua com a população negra e de comunidades tradicionais no combate ao racismo e outras formas de discriminação, no fortalecimento de movimentos populares, na promoção do bem-estar social e na promoção da justiça e dos direitos humanos.
Benilda Brito, coordenadora-executiva do Nzinga e integrante do Açude, explica que no quilombo existe um ditado chamado ‘Agulha puxa Linha’. As mais velhas são as agulhas, simbolizadas pela resistência do metal; aquelas que furam o pano, que abrem os caminhos. A linha são as mais novas, aparentemente frágeis, mas que precisam ser fortes para trilhar os caminhos abertos pelas agulhas e fazer uma costura bonita e firme.
“Quilombos são locais de resistência, de identidade, de reverência à ancestralidade. Por isso que a gente investe tanto na juventude, para que se tornem adultos responsáveis; e por isso que a gente cuida tanto dos nossos idosos, para que eles continuem nos ensinando. O apoio do Girls Act é fundamental nesse contexto”, diz Benilda.
Ayana Odara, coordenadora do Girls Act no Brasil, reforça que o trabalho com a AHF é importante para ampliar na comunidade o debate sobre saúde e construção de identidade coletiva.
“Aprendemos com o quilombo a potencializar as diferentes vozes e narrativas para meninas e mulheres Negras, quilombolas e de religião de matriz africana. Unir os quilombos do Açude e do Manzo para celebrar o Dia das Meninas foi um sonho coletivo e ancestral, que nos possibilitou a criação conjunta de novas narrativas possíveis de futuro, que celebram a identidade, a memória e a resistência”.
Nosso filme
Minidocumentário gravado no quilombo urbano do Manzo, em Belo Horizonte/MG (2024). Duração: 17 minutos. Uma iniciativa AHF Brasil, Girls Act, Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango e Quilombo do Açude. Disponível aqui .